Publicado por: goretef | outubro 13, 2011

catch me

Não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado,
apenas a sombra de sua beleza perdida.  ~ Julia Allen Field

Além de curtir o hábito de fotografar, e ainda que não seja uma fotógrafa tecnicamente profissional, mas, intuitiva; também exerço atividades no campo da educação ambiental.
Uma das questões mais controversas que frequentemente me deparo, seja por inquietações próprias ou por questionamentos levantados pelos alunos, é sobre a necessidade, existência e a função dos zoológicos.
Como estudiosa em educação ambiental, reconheço que o zoológico tem vários papéis fundamentais nesse campo, na disseminação do conhecimento e na preservação das espécies.
No entanto, na condição de ‘fotógrafa’, debato-me com minhas próprias contradições.   Afinal, quão ético será fotografar animais aprisionados?
Estaríamos, pretensiosamente ou inadvertidamente, fazendo apologia do lado nefasto da missão dos zoológicos?A natureza, aparentemente perfeita em suas próprias lógicas, nos espanta muitas vezes por parecer incoerente, imperfeita, incorreta. No funcionamento da cadeia evolutiva, em especial da cadeia alimentar, ela expõe as suas idiossincrasias.
Ora, como seres inacabados que somos (olha, o Paulo Freire!), também somos parte dessa biodiversidade. Como parte dela, trazemos impressos nos nossos genes não apenas os bons atributos, como os seus malefícios. Afora os bons e maus costumes que incorporamos ao longo da vida, na convivência com e/ou no manejo de outras espécies, como fauna, flora, e outras coisas tangíveis e intangíveis que nós mesmos criamos.
Embora, na maioria das vezes, tenhamos a noção do que seja a maldade, o crime, a violência contra qualquer espécie; em outras instâncias, temos dificuldade de enxergar (às vezes, nem desejamos) as fronteiras do comportamento considerado  geralmente ético, aceitável.
Dito isso, admito que vejo os dois lados do zoológico: um que vislumbra o caráter educativo, construtivo e reabilitador das espécies; e outro, que cerceia a liberdade, ostentando as mazelas de criaturas indefesas, fora do seu habitat.
Então, questiono:  O fotógrafo deveria recusar-se a registrar os animais aprisionados?  E se o fizer, estará exercendo o elogio da repressão?
Onde fica, assim, o papel dos fotógrafos de guerra, das catástrofes, da vida policial?  Eles não deveriam fotografar? Estariam – em seu papel de informar -, louvando a violência?  Como deve então, se portar, por exemplo, o foto-jornalismo diante da biodiversidade?
Tenho muitas certezas sobre as questões levantadas, mas tenho também algumas incertezas e contradições internas.
Baseada no conhecimento geral, e nas dúvidas ainda  insolúveis, estou buscando fundamentar minha postura sob três importantes e respeitados ângulos de visão que tratamos lá no Flickr:
· A visão que tenho concebido até o presente – Por longos séculos maltratamos a mãe-natureza- por alienação, por maldade, por falta de percepção ambiental, do nosso mundo-lar. Nem conhecemos suficientemente nossos co-habitantes, com os quais fazemos parte dessa mesma biodiversidade. O reconhecimento da biodiversidade é importante porque, conhecendo, entendemos porque precisamos respeitar todas as espécies; respeitando-as, estaremos honrando a nós mesmos. Esse é um dos papéis do zoo, além do conhecimento, a aprendizagem. A outra face do zoo – como eu vejo – é o cuidar mesmo, reabilitar as espécies agredidas, maltratadas; disseminar o como nutrir melhor; e, com essas experiências, auxiliar nas formulações das políticas públicas com vistas à preservação, à melhoria dos seus habitats, ao respeito. É por isso que gosto de registrar em fotografias, ainda que me doa vê-las cerceadas de sua liberdade.
· A visão de quem é “terminantemente contra” zoológicos [1]. – “Sinto muito por esses animais que vivem confinados a pequenos espaços. Sou terminantemente contra zoológicos. Não vejo sentido em manter presos animais que tem toda a imensidão da natureza para viver.” […] “Há muitos anos atrás a Kodak lançou uma campanha publicitária que ainda hoje lembro e acredito ter sido o mais bem sucedido comercial. Trata-se de uma pessoa que antes saia a caçar borboletas e as aprisionava, colocando-as em quadros, em dado momento uma fada arranca das mãos do caçador a pequena rede e lhe entrega uma câmera e ensina a fotografar as borboletas em seu mundo, seu habitat. O caçador passa então a fotografar as borboletas e continua colocando-as na parede, só que agora em fotos. Poderíamos fazer o mesmo, fotografar os animais em seu habitat e não em zôos.”
· A visão de quem reforça o papel dos zoológicos [2] – “Só que hoje em dia, […] os ‘grandes espaços’ destes pobres animais estão drasticamente sendo destruídos – e no Brasil em grande escala – e, se não existissem os zoológicos, várias espécies já estariam definitivamente exterminadas. Já tive oportunidade de acompanhar o trabalho e a preocupação de biólogos e zoólogos europeus com animais em cativeiro e preciso dizer, que estes vivem bem melhor cuidados do que seus familiares na reclamada ‘imensidão da natureza’. Não é a ‘imensidão’ que precisam, mas o bioma, o habitat especial para cada espécie – coisa que esses cientistas criam com perfeição – e certos ignorantes queimam dia após dia ! Acredito até, que zoológicos contribuíram bastante para fortificar e expandir mundialmente a opinião pública em defesa da proteção aos animais! Sabia, que a maioria dos animais em zoológicos bem cuidados tem um ciclo de vida mais longo que na liberdade ?”
E você, notável leitor, o que pensa sobre a existência dos zoológicos? E sobre a fotografia da biodiversidade, e nos zoológicos? Se deseja expressar sua opinião, este canal está aberto para você.
Certamente, esses temas são polêmicos, e não são inválidos os diferentes pontos de vista. É bom lembrar que, na discussão acima, mencionamos aspectos objetivos, técnicos, tangíveis – fáceis de serem confirmados, aceitos ou refutados. Mas, voltando à idéia da cadeia evolutiva, envolvem, também, outros fatores que são subjetivos, éticos, políticos e até espirituais – tornando difícil distinguir os limites do que seja certo ou errado. Enfim, não compete aqui defender visões maniqueístas, senão, abrir um pouco as nossas mentes na direção de um ponto de equilíbrio entre distintas perspectivas sobre a nossa própria existência no seio dessa biodiversidade.
—————————

[Este post é derivado da série de fotos feitas pela a autora no Zoológico de Brasília, que estimularam os pontos de vista expressos acima, muito úteis na reflexão das questões relacionadas ao papel dos zoológicos e à captura de fotos de animais nos zoológicos. A idéia de publicação das opiniões neste blog é de contribuir para esta reflexão.  O post foi originalmente escrito para o blog Eu Bloggo, com a intenção de expandir essa idéia para um contexto legistimamente ambiental, onde a reflexão pode ser ainda mais proveitosa.  Confiro os créditos das opiniões acima aos fotógrafos David Trindade Filho [1] e  Klaus D. Günther[2] .]


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